Magic Cloud

...Testemunho numa lente a minha própria visão!...A força da imagem!...
"Quantas pessoas que se quiseram suicidar, se contentaram em rasgar a própria fotografia!" Jules Renard

....................................Fotografias e textos assinados por MarySky

A picture and a thousand words

Anos 60 sobrevivem na Serra da Lousã

Radicais dos anos 60. Amantes da liberdade. Homens e mulheres decididos a mudar o mundo com palavras, deixam a pátria e com ela uma vida. Entregam-se de corpo e alma a uma luta de paz e amor que irá resolver as diferenças dos povos. Fogem do “demoníaco modernismo” que veio para destruir a união. Cansados da civilização, abrigam-se ao som da água e chilrear dos pássaros. Ter uma vida tranquila e em harmonia com a Mãe Natureza passa a ser a única condição para a felicidade e bem-estar interior.
Coimbra, cidade onde ruas apertadas transpiram saudade, a calçada relembra passeatas de traje e o Mondego leva no leito euforias. Esconde no cume da sua serra um paraíso perdido, numa paisagem de casas de xisto. Catarredor, na Serra da Lousã, é uma das aldeias serranas que acolhe a geração revolucionária.
A viagem para a terra do nunca é diferente do habitual citadino. As estradas enormes e repletas de movimento não passam de um caminho encurralado entre uma encosta e um precipício; os cafés em cada esquina são substituídos por miradouros que fazem as delícias dos que ali param para avistar a vila de longe. O mais empolgante é a ânsia de a qualquer momento olhar em volta e ver um animal selvagem, um veado talvez. Sente-se a pureza do ar. As margens repletas de árvores escondem o interior da floresta, o barulho de pequenos riachos é intenso e os fios de água cristalinos. Cheira a fresco e a eucalipto. Do nada surge um caminho de terra batida, esburacado e deserto que resguarda na outra ponta um mundo à parte.
À primeira vista, o Catarredor surpreende pelo panorama. Não se vêm as tendas adornadas com cores vivas e lemas revolucionários, não se ouve a música constante e alegre, não existe a fogueira enorme que ficou da festa da noite anterior. A imagem pré-definida de um povo rural que vive e sobrevive afogando as mágoas por não conseguir mudar o mundo não é a real. .
Apesar de não ser a esperada, a paisagem ainda assim seduz. O pedacinho de chão perdido esconde um labirinto de casas de xisto reconstruídas, contornadas por ruelas apertadas de terra, enfeitadas pela natureza em bruto. A melodia da água perde-se no cantar dos pássaros e confunde-se com o som do vento. Vive-se um ambiente de paz e tranquilidade.

Numa comunidade de aproximadamente 20 habitantes, a partilha é muita apesar do pouco a partilhar. O primeiro passo é a coragem e o ideal de união persiste, seguindo o cantar do pai do reggae, Bob Marley, One love, one heart. A decisão de uma vida simples e longe de tudo e de todos é difícil, mas o mundo doentio dos homens torna a aliança com a Mãe Natureza a escolha mais acertada.
São um povo que divide connosco o mesmo hino e a mesma bandeira, riem do engraçado e tentam sempre rir também das tristezas. São pessoas que precisam de pouco para viver, apenas o essêncial , mas por vezes as alternativas tornam-se poucas e o stress acaba por chegar até a esta aldeia.
Vivem de energias positivas e cada um com uma história de vida tão diferente mas ao mesmo tempo tão igual. E a cada problema que surge, o maior reconforto é sem duvida a calma e beleza da natureza que os rodeia.
Catarredor é uma aldeia hospitaleira, não distingue raças nem ideais para acolher quem ali quiser pernoitar.E por incrivel que pareça é possível nascer e ser criado no meio do nada e sem o conforto a que a maioria das pessoas está habituada. O exemplo disso é a família de Aannegrett. Quatro gerações ainda hoje permanecem na aldeia. A sua mãe, de 82 anos, a própria, com aproximadamente 55 anos, a sua filha de 28 e a neta de um ano e dois meses. Esta mulher, que um dia lutou pelos valores radicais de «peace and love», torna-se mais liberal com o passar dos anos. “No inicio as minhas ideias eram mais radicais, lavávamos tudo à mão, não tínhamos electricidade na casa, só velas ou luz de petróleo, mas com as crianças na escola tive de optar por um bocado mais de modernidade. Às vezes era preciso uma camisola lavada e a máquina de lavar dava jeito nessas alturas. Não queria que as crianças fossem postas de parte”, diz a anciã da comunidade.
No fundo, para esta geração um dia revolucionária, a base da vida é comer e beber, e se faltar isso, falta tudo. “As pessoas pensam que a terra é suja ou má, mas não. Para mim a terra é um produto de vida, alimenta-nos. Mau é sujar os rios, a poluição em geral, isso é que é mau… A terra não, a terra é um produto de vida que tem de se respeitar muito, porque se não a vida acaba rápido”.

Mariana Carvalho (MarySky)

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